Primeira travessia: quando Aracruz chegou ao Espaço Cultural Emaranhado
No dia 12 de junho de 2026, às 14 horas, realizamos a primeira apresentação de A Jornada de Abiã com Oxum no Espaço Cultural Emaranhado. Recebemos 40 estudantes da EEEFM Primo Bitti, do município de Aracruz, para uma tarde de espetáculo, roda de conversa e oficina de dança afro.
Há algo de muito bonito em pensar que a primeira escola a ocupar esse espaço veio de outro município, do norte do Espírito Santo. Aracruz está a muitos quilômetros de Vitória e, para nós, iniciar essa jornada rompendo o fluxo que costuma concentrar as ações culturais na região metropolitana tem um significado enorme. Fazer com que a nossa mensagem atravesse outras paisagens do estado e encontre estudantes de outros territórios é, por si só, uma ação de grande riqueza.
Essa experiência ganhou ainda mais sentido porque Aracruz é um município reconhecido pela presença e pela força dos povos originários. Entre os estudantes presentes, estavam crianças e jovens aldeados e participantes de grupos de danças tradicionais de suas comunidades. Escutar suas falas, perceber seus modos de observar o espetáculo e compartilhar esse encontro nos fez compreender que a cena não termina quando as luzes se apagam. Ela continua nas conversas, nas perguntas, nos gestos e nas memórias que cada corpo leva consigo.
Entendemos o corpo como uma encruzilhada de comunicação e também como documento. Os corpos carregam informações, experiências, marcas e conhecimentos produzidos nos lugares que habitam. Cada pessoa chega trazendo seus percursos, suas memórias e suas formas de compreender o mundo. Por isso, receber esses estudantes no Emaranhado foi também receber outros repertórios de existência.
A roda de conversa e a oficina de dança afro ampliaram ainda mais esse encontro. Falamos sobre ancestralidade, sobre memória, sobre o que os corpos sabem e aprendem. Dançamos, experimentamos gestualidades inspiradas nas culturas afro-brasileiras e pensamos juntos sobre o que a arte pode produzir quando se torna espaço de escuta e de partilha.
A Jornada de Abiã com Oxum nasce desse desejo de criar imagens que ampliem as possibilidades de existência da arte negra. Vivemos em um mundo ainda profundamente marcado por processos coloniais que produzem hierarquias de humanidade e insistem em negar a plenitude da vida negra. Nesse contexto, entendemos a arte negra contemporânea como espaço político, poético e pedagógico. Uma arte que denuncia, resiste, produz memória e cria outras possibilidades de imaginar o mundo.
O espetáculo não pretende oferecer respostas prontas. Ele procura abrir caminhos. Perguntar como sobrevivemos em uma realidade que frequentemente negligencia o direito de muitos corpos habitarem a terra em sua inteireza. Perguntar como produzimos beleza, conhecimento e comunidade em meio às marcas deixadas pela Maafa e pelos processos históricos de violência contra povos negros e originários.
Talvez seja justamente por isso que esta primeira apresentação tenha sido tão significativa. Ela nos lembrou que a arte é também um lugar de encontro entre agendas históricas que se aproximaram no contexto colonial e que continuam produzindo relações de afeto, criação artística, pensamento e resistência.
Começar essa travessia ao lado de estudantes de Aracruz foi um presente. Foi a confirmação de que a arte afrorreferenciada possui potência para construir diálogos, deslocar percepções e criar novos espaços de imaginação sobre quem somos e sobre quem ainda podemos nos tornar.
Esta foi apenas a primeira de vinte apresentações previstas pelo projeto. Se a primeira travessia já nos ensinou algo, é que os rios que estamos construindo com A Jornada de Abiã com Oxum certamente encontrarão muitas outras águas pelo caminho.
Apresentação do espetáculo - 12/06/2026
https://youtu.be/UpB1qvKBNr4
Roda de conversa - 12/06/2026
https://youtu.be/8kB1n2eORB0

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