A trilha sonora como estrutura dramatúrgica
A concepção da trilha sonora de A Jornada de Abiã com Oxum está diretamente relacionada à construção dramatúrgica do espetáculo. Nesse processo, música, dança, teatralidade e narrativa não aparecem como elementos independentes, mas constituem uma mesma arquitetura cênica. As escolhas sonoras orientam atmosferas, temporalidades e modos de presença dos intérpretes, ao mesmo tempo em que organizam a progressão dramatúrgica da obra.
Embora a produção contemporânea apresente múltiplas possibilidades de construção narrativa, incluindo estruturas fragmentadas e não lineares, optou-se por uma dramaturgia que preserva uma trajetória de início, desenvolvimento e conclusão. Entretanto, essa organização não se realiza por meio de uma narrativa literal ou cronológica. As cenas estabelecem relações simbólicas, poéticas e afetivas entre si, produzindo uma experiência múltipla de sentidos.
Nesse contexto, dialogamos com as reflexões de Canton (2009) sobre as narrativas contemporâneas e com a noção de composição dramatúrgica apresentada por Fagundes (2019), compreendendo a dramaturgia como um processo de organização, modelagem e edição de materiais diversos que, reunidos, constituem uma proposição cênica original.
A trilha sonora foi organizada em três blocos dramatúrgicos: Guerra, Brincadeira e Sagracional. Cada bloco reúne músicas, ações corporais, textos gravados, cantos ao vivo e proposições cênicas específicas. Assim, os blocos musicais correspondem aos blocos dramatúrgicos do espetáculo, constituindo diferentes momentos da trajetória dos Abiãs.

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