Os abebés: espelhos da memória, do conhecimento e da ancestralidade
Entre os elementos cênicos que compõem a cenografia de A Jornada de Abiã com Oxum, destacam-se três abebés, objeto iconográfico tradicionalmente associado a Oxum. Conhecido como espelho ritual, o abebé constitui um dos principais símbolos dessa divindade, estando relacionado não apenas à beleza e ao brilho, mas também ao autoconhecimento, à sabedoria, à sensibilidade e à capacidade de reconhecer aquilo que habita o interior de cada ser.
Na concepção do espetáculo, os abebés foram confeccionados artesanalmente a partir de galhos secos recolhidos da natureza, posteriormente pintados em tonalidade dourada, envernizados e cobertos por partículas cintilantes que potencializam sua relação com a luz. Esses elementos foram então incorporados a estruturas inspiradas nos abebés presentes nas tradições do candomblé, produzindo uma ressignificação poética que dialoga simultaneamente com a ancestralidade africana, a dramaturgia da obra e o universo imaginativo da infância.
Ao início da apresentação, os três abebés encontram-se suspensos junto às esteiras que revestem a parede de fundo do cenário, como se aguardassem o momento de revelar suas histórias. No decorrer da narrativa, passam a ser manipulados pelos intérpretes, ocupando diferentes espaços da cena, atravessando a areia, dialogando com os corpos dos bailarinos e assumindo múltiplos significados ao longo da jornada de Abiã. Dessa forma, deixam de ser apenas objetos cenográficos para se tornarem agentes ativos da dramaturgia.
A escolha do abebé como elemento central da composição visual dialoga diretamente com a cosmogonia de Oxum. Conhecido como o "espelho da alma", o abebé não serve apenas para refletir a aparência exterior, mas para favorecer processos de reconhecimento interior. Em cena, seus reflexos dourados capturam a luz produzida pelos lustres de palha da costa e a devolvem ao espaço em movimentos delicados, criando imagens que remetem ao brilho do sol sobre as águas doces. Assim, o objeto reforça a presença simbólica de Oxum e amplia a atmosfera poética construída pelo espetáculo.
Os reflexos produzidos pelos abebés também evocam uma dimensão pedagógica fundamental da obra. Se a jornada de Abiã é marcada pela descoberta, pelo aprendizado e pela construção de vínculos com a ancestralidade, o espelho surge como metáfora do processo de reconhecimento de si e do outro. O objeto convida as crianças a refletirem sobre identidade, pertencimento e memória, sugerindo que conhecer a própria história é também uma forma de compreender o mundo.
Essa perspectiva encontra ressonância nos estudos sobre o lugar do abiã nas comunidades de terreiro. Conforme destaca Anderson Rodrigues Teixeira (2018), o abiã participa intensamente da vida comunitária e dos processos de transmissão de saberes, aprendendo por meio da convivência, da observação e da escuta. Nesse sentido, o abebé presente no espetáculo torna-se uma metáfora dessa formação contínua. Assim como o espelho reflete imagens, o abiã reflete os conhecimentos, valores e modos de viver que recebe da comunidade ao longo de sua trajetória.
Ao longo da dramaturgia, os abebés transformam-se em superfícies de memória. Eles refletem não apenas os corpos dos intérpretes, mas também as histórias narradas em cena, os ensinamentos associados às águas doces de Oxum e os caminhos percorridos pela personagem principal. Tornam-se, portanto, espelhos simbólicos das narrativas afro-brasileiras que o espetáculo busca preservar, compartilhar e fazer florescer junto ao público infantil.
Dessa forma, os três abebés constituem mais do que objetos de representação iconográfica. Eles operam como dispositivos poéticos que articulam luz, movimento, memória e ancestralidade. Seus reflexos atravessam a cena como as águas de Oxum atravessam a narrativa, revelando que existem histórias que precisam ser vistas, lembradas e transmitidas às novas gerações. Em A Jornada de Abiã com Oxum, o abebé torna-se o espelho do espetáculo: um espelho que não apenas reflete imagens, mas também convoca o público a reconhecer a riqueza das culturas afro-brasileiras e a beleza das memórias que nelas permanecem vivas.
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