Os lustres de palha da costa: luz, ancestralidade e acolhimento na construção do espaço cênico
A composição cenográfica de A Jornada de Abiã com Oxum é complementada por cinco lustres confeccionados artesanalmente com palha da costa, elemento que ocupa lugar significativo nas tradições culturais afro-brasileiras e nas heranças africanas preservadas no Brasil. Suspensos sobre o espaço de apresentação, os lustres assumem simultaneamente funções cenográficas e de iluminação, integrando-se à dramaturgia visual do espetáculo e contribuindo para a criação de uma atmosfera sensível e acolhedora para o público infantil.
A escolha da palha da costa dialoga com a pesquisa que fundamenta a construção da obra. Conforme apontado por Anderson Rodrigues Teixeira (2018), a palha da costa é uma fibra vegetal tradicionalmente associada a diferentes práticas culturais e religiosas de matriz africana. Produzida originalmente a partir da ráfia extraída de uma palmeira africana, sua presença está relacionada a vestimentas, objetos e elementos que simbolizam continuidade, proteção, permanência e transmissão de conhecimentos entre gerações. Sua utilização no espetáculo não busca reproduzir contextos rituais específicos, mas reconhecer a potência simbólica desse material como portador de memória e ancestralidade.
Os lustres confeccionados com palha da costa constituem uma extensão das demais materialidades presentes na cena. Assim como a areia e as esteiras de palha, eles aproximam o público de elementos naturais que historicamente participam da construção de modos de vida, saberes e tecnologias desenvolvidas por populações africanas e afro-brasileiras. A trama das fibras vegetais evidencia o trabalho manual e a inteligência artesanal presente na transformação dos recursos da natureza em objetos de uso cotidiano, revelando conhecimentos transmitidos por meio da experiência, da observação e da convivência comunitária.
Além de sua dimensão material, os lustres desempenham papel fundamental na construção da ambiência cênica. Equipados com lâmpadas de tonalidade amarela, produzem uma luz quente que se espalha pelo espaço e dialoga diretamente com a textura da areia, das esteiras e das fibras vegetais. Ao incidir sobre esses materiais orgânicos, a iluminação cria reflexos suaves e tonalidades douradas que evocam acolhimento, delicadeza e intimidade, qualidades profundamente associadas à presença de Oxum na dramaturgia do espetáculo.
Essa luz dourada também estabelece uma relação poética com as águas doces que atravessam a narrativa. As superfícies da areia e da palha capturam e devolvem a luminosidade de forma irregular, criando a sensação de movimento contínuo, semelhante ao brilho da água quando refletida pela luz do sol. Dessa maneira, os lustres não apenas iluminam a cena, mas participam da construção imagética do universo de Oxum, ampliando a percepção sensorial do público.
Distribuídos acima do espaço cênico, os cinco lustres contribuem ainda para a configuração de uma atmosfera de abrigo e pertencimento. Sua presença suspensa ajuda a delimitar simbolicamente o território da narrativa, criando um ambiente que envolve artistas e espectadores em uma mesma experiência estética. Em diálogo com as esteiras que revestem a parede de fundo e ocupam o teto da cena, os lustres reforçam a ideia de uma arquitetura construída a partir de elementos naturais, na qual luz, palha, areia e corpo formam uma paisagem integrada.
Assim, os lustres de palha da costa constituem mais do que recursos de iluminação. Eles participam da construção de uma poética visual afrorreferenciada que articula ancestralidade, natureza, memória e infância. Ao iluminar a cena com tons quentes e acolhedores, contribuem para transformar o espaço teatral em um território de encontro, imaginação e valorização das culturas negro-brasileiras, fortalecendo a proposta artística e pedagógica de A Jornada de Abiã com Oxum.
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