As paredes-rio: fluxo, movimento e cosmopercepção das águas doces
Nas laterais do espaço cênico de A Jornada de Abiã com Oxum, duas composições cenográficas foram concebidas para representar o percurso das águas doces, ampliando a presença simbólica de Oxum para além dos corpos dos intérpretes e dos objetos cênicos. Essas estruturas laterais constituem verdadeiras paredes-rio que atravessam o ambiente da apresentação, criando uma paisagem visual que acompanha a jornada da personagem Abiã e convida o público infantil a perceber a água como movimento, transformação e continuidade.
Na lateral esquerda, considerando a posição frontal do público, a composição é formada por blocos quadrados de madeira confeccionados a partir do reaproveitamento dos pés de pallets. Organizados em diferentes alturas e profundidades, esses elementos produzem uma superfície tridimensional que sugere a expansão gradual de um curso d’água. Entre os blocos encontram-se pequenos espelhos circulares prateados que capturam a iluminação da cena e produzem reflexos delicados, semelhantes a gotas de água, fragmentos de luz ou pequenas cintilações sobre a superfície de um rio.
A disposição desses elementos cria a sensação de um fluxo que nasce junto à parede revestida de palha e se desloca pelo espaço, sugerindo o percurso das águas desde sua nascente até seu encontro com territórios mais amplos. A combinação entre madeira e espelho estabelece uma relação poética entre terra e água, entre permanência e movimento, evidenciando que o rio é sempre resultado do encontro de diferentes elementos da natureza.
Na lateral direita, a composição assume outra configuração. A parede é ocupada por dezenas de espelhos circulares dourados distribuídos em diferentes tamanhos e distâncias. Os espelhos iniciam um desenho mais concentrado e gradualmente expandem sua ocupação espacial, formando uma imagem que remete ao crescimento do rio ao longo de seu percurso. Entre eles, quatro peixes dourados confeccionados em madeira parecem atravessar as águas, criando uma leitura visual acessível ao universo infantil e reforçando a presença da vida que habita os rios.
Os espelhos dourados dialogam diretamente com a iconografia de Oxum e com os reflexos do abebé, objeto simbólico da divindade. Ao refletirem a luz quente produzida pelos lustres de palha da costa, criam uma paisagem luminosa que remete ao brilho do sol sobre as águas doces. As superfícies refletoras produzem movimentos visuais contínuos, fazendo com que a própria iluminação participe da construção imagética do rio.
A concepção dessas paredes-rio dialoga com uma compreensão das águas que ultrapassa sua representação física. Inspirada nas reflexões desenvolvidas sobre o Rio Cricaré e as filosofias africanas, a cenografia compreende o rio como um sistema de relações, encontros e transformações permanentes. Assim como um rio não é constituído apenas por sua nascente, mas pela interação contínua entre chuva, lençóis subterrâneos, atmosfera, afluentes e territórios que atravessa, também os conhecimentos e as culturas são produzidos por múltiplos encontros e atravessamentos.
Nessa perspectiva, as águas presentes no espetáculo tornam-se uma metáfora das próprias matrizes culturais afro-brasileiras. Elas não surgem de uma única fonte, mas resultam do diálogo entre diferentes tempos, lugares, ancestralidades e experiências coletivas. O fluxo representado pelas paredes laterais materializa visualmente essa compreensão, apresentando às crianças a ideia de que a vida, os saberes e as culturas estão em constante movimento.
Ao longo da apresentação, essas composições não funcionam apenas como elementos decorativos, mas como extensões da dramaturgia. Elas ajudam a construir uma atmosfera na qual a água está presente em todos os lugares: na areia que recebe seus rastros, nos espelhos que refletem sua luz, nos peixes que habitam seus caminhos e nos corpos que dançam suas histórias. Dessa forma, o cenário transforma-se em um grande território das águas de Oxum, onde o público é convidado a compreender que toda nascente carrega múltiplas origens e que todo rio é, ao mesmo tempo, memória, percurso e transformação.
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