A areia como território de memória, ancestralidade e aprendizagem em A Jornada de Abiã com Oxum
A presença da areia no espaço cênico do espetáculo A Jornada de Abiã com Oxum constitui uma escolha estética, dramatúrgica e pedagógica que dialoga diretamente com os fundamentos afrorreferenciados da obra. Ao trazer a areia para o corpo da cena, buscamos criar um território simbólico capaz de aproximar as crianças de referências culturais negro-brasileiras e africanas, oferecendo uma experiência sensorial que amplia os modos de perceber, sentir e compreender o mundo.
A dramaturgia do espetáculo aborda a trajetória de descoberta espiritual da personagem Abiã, inspirada nos processos de aprendizado, cuidado e transformação presentes nas tradições afro-brasileiras. Nesse percurso, a areia funciona como um chão ancestral, evocando paisagens, caminhos e territórios que conectam a diáspora africana às experiências culturais construídas no Brasil. Mais do que um elemento cenográfico, ela se torna um campo de memória que possibilita às crianças entrar em contato com imaginários frequentemente ausentes dos espaços educativos e artísticos voltados ao público infantojuvenil.
A escolha da areia também estabelece um diálogo com diferentes territórios do continente africano, especialmente com referências culturais da África Ocidental, região de onde partiram muitos dos povos que contribuíram para a formação das culturas afro-brasileiras. Sem pretender reproduzir geograficamente esses espaços, a cena mobiliza a areia como matéria poética que remete a caminhos percorridos, encontros culturais e saberes transmitidos ao longo das gerações. Dessa forma, o espetáculo fortalece o reconhecimento das contribuições africanas para a construção da sociedade brasileira e amplia os repertórios culturais das crianças.
No campo da experiência estética, a areia produz estímulos táteis, visuais e sonoros que enriquecem a relação das crianças com a cena. Ao observar os corpos dançando, desenhando trajetórias e criando imagens sobre esse chão móvel, o público é convidado a desenvolver a imaginação, a sensibilidade e a capacidade de estabelecer relações entre corpo, natureza e memória. A materialidade da areia contribui para a construção de uma dramaturgia viva, na qual os rastros deixados pelos artistas se transformam em marcas do percurso de aprendizagem e descoberta vivido pela personagem Abiã.
A presença desse elemento também dialoga com o universo infantil. A areia é um material amplamente associado ao brincar, à criação de formas, à experimentação e à descoberta do mundo. Ao incorporá-la ao espetáculo, estabelecemos uma ponte entre as experiências cotidianas das crianças e os conhecimentos culturais apresentados em cena. Essa aproximação favorece processos de identificação, pertencimento e curiosidade, permitindo que temas relacionados à ancestralidade, à cultura afro-brasileira e à valorização da diversidade sejam vivenciados de maneira sensível e acessível.
Assim, a areia em A Jornada de Abiã com Oxum não é apenas um recurso cenográfico. Ela constitui um território poético de encontro entre África e Brasil, entre memória e imaginação, entre ancestralidade e infância. Sua presença contribui para a construção de uma experiência artística comprometida com a valorização das culturas negro-brasileiras, com a ampliação dos repertórios culturais das crianças e com a formação de olhares mais sensíveis à diversidade que compõe a sociedade brasileira.
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