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Elemento Cênico e Cenografia - Alguidar

 


Os alguidar como dispositivos de água, corpo e percepção em A Jornada de Abiã com Oxum

Entre os elementos cênicos que estruturam a experiência sensível de A Jornada de Abiã com Oxum, destacam-se três alguidar personalizados, dispostos inicialmente aos pés da parede de esteiras no fundo do espaço cênico. Tradicionalmente utilizados na cozinha para preparo, lavagem e manipulação de alimentos, os alguidar são aqui ressignificados como recipientes de água doce e como dispositivos de experiência corporal e simbólica, articulando memória, cuidado e percepção.

Na concepção do espetáculo, cada alguidar apresenta uma intervenção material específica: seu interior foi pintado em tonalidade dourada, enquanto o fundo recebe a aplicação de pedras que evocam joias, cristais e elementos de valor simbólico. Em suas bordas, búzios foram cuidadosamente colados, instaurando uma relação visual com práticas de leitura simbólica e sistemas de adivinhação presentes em tradições afro-atlânticas. Essa composição não busca ilustrar diretamente tais sistemas, mas reconhecer a presença de epistemologias sensíveis nas quais matéria, natureza e percepção se articulam como formas de conhecimento.

Ao serem incorporados à cena, os alguidar deixam de ser objetos estáticos e passam a operar como territórios de encontro entre corpo e água. Em um momento central da dramaturgia, os intérpretes se dirigem ao centro do espaço e organizam-se em círculo, de costas uns para os outros, estabelecendo uma formação corporal que preserva o fluxo energético da cena. Sentados, posicionam os alguidar à sua frente e iniciam uma sequência de ações performativas acompanhadas pela canção “Abiã”, interpretada por Mariene de Castro e executada ao vivo pela bailarina Jaciara Bernardino.

Nesse momento, o gesto de olhar dentro do alguidar transforma-se em um ato de reflexão literal e simbólica. A superfície da água torna-se espelho, instaurando uma relação direta com a interioridade dos corpos e com a ideia de autopercepção. As ações de lavar mãos, pulsos, rosto e nuca constroem uma sequência de gestos de cuidado e purificação que articulam corpo, água e memória, produzindo uma experiência de atenção ampliada tanto para os intérpretes quanto para o público.

A água presente nos alguidar não é apenas elemento cenográfico, mas substância dramatúrgica. Ela opera como meio de transição entre estados corporais e simbólicos, instaurando um momento de suspensão e reorganização sensível da cena. Ao final da sequência, os recipientes são deslocados para baixo das luminárias, onde a luz incide diretamente sobre a superfície da água, produzindo reflexos que transformam cada alguidar em uma pequena paisagem luminosa. Nesse instante, a água deixa de ser apenas elemento de limpeza e passa a ser também superfície de contemplação, memória e transformação.

Essa construção dialoga diretamente com compreensões do corpo como microcosmo, nas quais cada parte do corpo estabelece relações com dimensões mais amplas da existência, da ancestralidade e da vida comunitária. Nesse sentido, os pés, as mãos e a cabeça não são apenas estruturas anatômicas, mas pontos de conexão entre indivíduo, mundo e memória coletiva. A cena dos alguidar atualiza essa perspectiva ao colocar o corpo em relação direta com a água, com o chão e com a luz, instaurando uma experiência de aprendizagem sensível.

A presença desse dispositivo também se articula com práticas de cuidado e chegada presentes em comunidades de terreiro, nas quais a água ocupa papel fundamental nos rituais de passagem, purificação e integração ao espaço comunitário. Sem buscar reprodução literal dessas práticas, o espetáculo reconhece a água como elemento estruturante de modos de existência nos quais o corpo é continuamente atravessado por relações de cuidado, pertencimento e reorganização simbólica.

A canção que acompanha a cena contribui para a dimensão pedagógica e afetiva do momento, pois ativa memórias coletivas e amplia a escuta do público infantil para diferentes camadas de sentido. A música, o gesto e a água se entrelaçam em uma experiência que não se reduz à narrativa, mas se constitui como vivência compartilhada de presença e atenção.

Ao final da sequência, os alguidar são reintegrados à cena, permanecendo disponíveis para novas articulações dramatúrgicas. Essa permanência reafirma sua condição de objetos vivos dentro da encenação, capazes de assumir múltiplos papéis ao longo do espetáculo: recipiente, espelho, território, instrumento de cuidado e superfície de reflexão.

Dessa forma, os alguidar em A Jornada de Abiã com Oxum constituem dispositivos cênicos que articulam água, corpo e percepção, contribuindo para a construção de uma dramaturgia na qual o conhecimento não é apenas narrado, mas vivido como experiência sensível, coletiva e em constante transformação.


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