O corpo sonoro da cena: pau de chuva, guizos e chocalhos na tríade cantar-dançar-batucar
A composição cenográfica de A Jornada de Abiã com Oxum se expande para o campo sonoro por meio da presença de três dispositivos musicais fundamentais: o pau de chuva, os guizos e os chocalhos confeccionados com tampinhas de garrafa PET. Esses elementos não operam apenas como instrumentos de musicalização, mas como extensões sensíveis da dramaturgia, articulando uma proposta sonora baseada na tríade cantar–dançar–batucar, compreendida aqui como fundamento epistemológico e performativo das artes negro-diaspóricas.
A partir das contribuições de Zeca Ligiéro (2011), compreende-se que a tríade cantar-dançar-batucar constitui um sistema integrado de produção de sentido, afeto e percepção. Mais do que uma organização estética, trata-se de uma tecnologia cultural que atravessa práticas rituais, celebratórias e comunitárias, na qual som, corpo e voz não se separam, mas se constituem mutuamente. Nesse sentido, a música no espetáculo não é concebida como objeto de exibição, mas como campo relacional, onde o som opera como ponte entre corpo, memória e ancestralidade.
O pau de chuva, presente na cena, emula o som contínuo das águas em movimento. Seu timbre suave e circular evoca a chuva, os fluxos dos rios e as águas doces de Oxum, instaurando uma ambiência sonora de fluidez e acolhimento. De origem associada a práticas xamânicas e a povos indígenas da América do Sul, o instrumento aqui é ressignificado como dispositivo poético que aproxima o público infantil das imagens sonoras da natureza, reforçando a ideia de que a água é movimento, ciclo e transformação. Sua presença sonora contribui para a construção de uma escuta sensível, capaz de ativar memórias corporais e imaginários ligados ao fluxo da vida.
Os chocalhos confeccionados com tampinhas de garrafa PET introduzem uma dimensão pedagógica e ecológica ao dispositivo sonoro do espetáculo. Seu som estalado, seco e rítmico produz uma textura sonora que remete tanto à chuva intensa quanto às estruturas percussivas presentes em diversas manifestações musicais brasileiras. Por serem instrumentos de fácil construção, eles ampliam a possibilidade de reprodução e experimentação por crianças e educadores, instaurando um campo de aprendizagem musical baseado no reaproveitamento de materiais e na consciência ambiental. Dessa forma, o som não é apenas escutado, mas também produzido, recriado e compartilhado.
Os guizos, utilizados pelos bailarinos nos tornozelos em determinados momentos da encenação, introduzem uma camada sonora ligada diretamente ao movimento do corpo. Seu som metálico e vibrante acompanha o deslocamento dos intérpretes, criando uma relação entre ritmo, gesto e espacialidade. Essa sonoridade, presente em diversas tradições musicais afro-brasileiras, opera como marcação do corpo em cena, reforçando a presença do movimento como produtor de som e sentido.
Na dramaturgia do espetáculo, o guizo também se relaciona às práticas de formação e aprendizagem dos abiãs nos terreiros, onde a presença de adornos sonoros no corpo participa da construção de uma escuta ampliada do espaço coletivo. Conforme apontam estudos sobre as dinâmicas rituais, o som produzido pelos corpos em movimento integra uma rede de sinais que organiza a convivência, o aprendizado e a percepção do pertencimento comunitário.
Ao articular esses três dispositivos, pau de chuva, chocalhos e guizos, o espetáculo constrói uma paisagem sonora baseada na relação entre natureza, corpo e memória. A água, o ritmo e o movimento deixam de ser apenas referências simbólicas e passam a constituir uma experiência sensível compartilhada entre cena e público. Essa construção sonora reforça a compreensão de que, nas cosmopercepções afro-diaspóricas, o conhecimento não se organiza apenas pela linguagem verbal, mas também pelo som, pelo corpo e pela vibração.
Nesse sentido, a tríade cantar-dançar-batucar emerge como eixo estruturante da encenação, ativando uma pedagogia sensível na qual aprender é também escutar, mover-se e produzir som. O espetáculo reafirma, assim, a dimensão coletiva e relacional das práticas culturais afro-brasileiras, nas quais o som não é apenas expressão, mas forma de existência, memória e continuidade.
Dessa maneira, o corpo sonoro de A Jornada de Abiã com Oxum não se separa do corpo cenográfico nem do corpo da narrativa. Ele os atravessa, os amplia e os conecta, constituindo uma experiência estética em que cantar, dançar e batucar são modos de conhecer o mundo, de habitar a ancestralidade e de compartilhar a vida em comunidade.
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