As esteiras de palha como arquitetura da memória e da ancestralidade em A Jornada de Abiã com Oxum
As esteiras de palha presentes na cenografia de A Jornada de Abiã com Oxum constituem um elemento central da construção estética e dramatúrgica do espetáculo. Distribuídas pelo teto e ocupando integralmente a parede de fundo da cena, as esteiras transformam o espaço de apresentação em um território de memória, acolhimento e ancestralidade, aproximando o público infantil de práticas culturais historicamente presentes em comunidades africanas e afro-brasileiras.
A escolha desse material nasce do reconhecimento da esteira como um objeto cotidiano que atravessa gerações, carregando saberes relacionados ao trabalho manual, à relação respeitosa com a natureza e às formas coletivas de viver. Produzidas a partir de fibras vegetais, as esteiras representam conhecimentos transmitidos por meio da prática, da observação e da convivência comunitária. Cada trama evidencia o encontro entre mãos, tempo e experiência, transformando um recurso natural em abrigo, assento, leito, espaço de reunião e instrumento de transmissão cultural.
No espetáculo, as esteiras estabelecem diálogo direto com a trajetória da personagem Abiã. Nas tradições do candomblé, o abiã é aquele que inicia sua caminhada de aprendizado junto à comunidade. Conforme apontam os estudos de Anderson Rodrigues Teixeira (2018), a relação do abiã com a esteira e com o chão constitui parte importante de sua formação ritual e comunitária. Sentar-se sobre a esteira significa aprender a observar, escutar, respeitar os mais velhos e compreender gradualmente seu lugar dentro da coletividade. A esteira torna-se, portanto, um espaço de aprendizagem, pertencimento e construção de vínculos.
Essa dimensão simbólica inspira a concepção cenográfica de A Jornada de Abiã com Oxum. As esteiras suspensas sobre a cena funcionam como uma espécie de teto ancestral, envolvendo artistas e espectadores em uma atmosfera de acolhimento e proteção. Ao mesmo tempo, evocam os espaços comunitários onde histórias são compartilhadas, ensinamentos são transmitidos e memórias são preservadas entre gerações.
Na parede de fundo, as esteiras são recortadas em formas onduladas que remetem ao movimento das águas doces de Oxum. Essa solução visual aproxima dois elementos fundamentais da dramaturgia: a palha e a água. Enquanto a água simboliza o fluxo da vida, da fertilidade, do cuidado e da transformação, a esteira representa a permanência, o abrigo e a sustentação da memória. Juntas, elas criam uma paisagem poética na qual a ancestralidade não aparece como algo distante, mas como uma presença viva que continua moldando os modos de existir no presente.
A configuração espacial em semiarena reforça ainda mais essa proposta. O público é convidado a compartilhar o mesmo território simbólico ocupado pelos intérpretes, reduzindo as distâncias entre cena e plateia. As esteiras deixam de ser apenas elementos cenográficos e passam a constituir uma ambiência que envolve o olhar, o corpo e a imaginação das crianças. A textura natural da palha, suas tramas e formas orgânicas ajudam a construir um ambiente sensível capaz de despertar curiosidade e reconhecimento.
Para além de sua função estética, as esteiras contribuem para ampliar os repertórios culturais das crianças ao apresentar referências materiais vinculadas às culturas africanas e afro-brasileiras. Em uma sociedade marcada pela invisibilização de muitos saberes negros, a presença desse objeto cotidiano afirma a importância das tecnologias ancestrais desenvolvidas pelas populações africanas e seus descendentes. Assim, a cenografia torna-se também uma ferramenta pedagógica, permitindo que as crianças reconheçam a riqueza de conhecimentos produzidos a partir da relação entre corpo, comunidade e natureza.
Desse modo, as esteiras de palha em A Jornada de Abiã com Oxum constituem uma arquitetura da memória. Elas evocam os caminhos de aprendizagem dos abiãs, os saberes transmitidos pelos mais velhos, as relações comunitárias construídas no chão compartilhado e a força das águas doces de Oxum. Entrelaçadas como as próprias fibras que as compõem, essas referências criam um espaço cênico onde ancestralidade, imaginação e infância se encontram para celebrar a continuidade da cultura afro-brasileira.
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