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TEXTO CURATORIAL


 

A Jornada de Abiã com Oxum - Coletivo Emaranhado


A Jornada de Abiã com Oxum é um espetáculo infantojuvenil que articula dança, teatralidade, musicalidade e composição cenográfica como campos integrados de experiência sensível. Trata-se de uma obra que não se organiza pela ilustração de narrativas, mas pela criação de um ambiente imersivo no qual corpo, matéria e memória operam como dispositivos de percepção e aprendizagem.

A proposta curatorial do espetáculo se ancora em uma compreensão expandida de cena como território cosmoperceptivo. Nesse contexto, a cenografia não funciona como suporte da ação, mas como matriz ativa de produção de sentido, na qual diferentes materialidades, areia, palha, madeira, espelhos, água e som, constituem uma ecologia sensível do espaço. Essa ecologia não representa um mundo externo à cena; ela produz o próprio mundo da cena como experiência vivida.

A dramaturgia se estrutura a partir da figura do abiã, compreendido como sujeito em processo de formação, aprendizagem e inserção comunitária nas tradições afro-brasileiras. Sua trajetória não é linear, mas processual e relacional, atravessada por experiências de escuta, observação, cuidado e pertencimento. A presença de Oxum, orixá das águas doces, organiza o campo simbólico do espetáculo como princípio de fluidez, memória e transformação.

No espaço cênico, a areia estabelece o chão da experiência. Mais do que superfície física, ela opera como território de inscrição do corpo, no qual o gesto deixa vestígio e o movimento produz memória. As esteiras de palha que revestem a parede de fundo e se expandem em direção ao teto instauram uma arquitetura de convivência e aprendizagem, evocando modos de habitar o mundo baseados na coletividade, na escuta e na transmissão de saberes.

A luz, produzida por lustres confeccionados com palha da costa, integra-se a essa arquitetura como matéria sensível. Sua tonalidade quente qualifica o espaço e estabelece uma atmosfera de acolhimento, na qual diferentes materiais passam a refletir e refratar a luminosidade. A palha da costa, enquanto fibra vegetal historicamente vinculada a práticas culturais afro-atlânticas, é aqui compreendida como matéria de continuidade e memória, articulando natureza, trabalho manual e transmissão de conhecimentos.

Os abebés, espelhos associados a Oxum, operam como dispositivos de reflexão e reconhecimento. Sua presença em cena desloca o espelho da lógica da aparência para a lógica da interioridade, instaurando uma dramaturgia do reflexo. Ao captarem e devolverem a luz, os abebés produzem imagens em movimento que atravessam a cena como fluxos de memória, convidando o público à percepção de si e do outro como parte de um mesmo campo relacional.

As paredes laterais organizam o espaço como um sistema de fluxos inspirado na imagem do rio. De um lado, estruturas de madeira e espelhos prateados sugerem a nascente e o percurso inicial das águas; de outro, espelhos dourados e elementos em expansão evocam o movimento de desaguar. Essa composição não busca representar um rio específico, mas afirmar uma lógica de pensamento fluvial, na qual as águas são compreendidas como resultado de múltiplos atravessamentos entre terra, atmosfera e subterrâneo. O rio, aqui, é entendido como processo e não como forma fixa.

Os alguidar ressignificados introduzem a dimensão da água como experiência corporal direta. Ao serem preenchidos com água doce, tornam-se espelhos líquidos nos quais os intérpretes realizam gestos de cuidado, purificação e percepção. A cena que os envolve articula corpo, água e luz como tecnologias de atenção, nas quais o olhar sobre a superfície líquida reorganiza a relação entre interioridade e exterioridade.

No campo sonoro, a obra se estrutura a partir da tríade cantar–dançar–batucar, compreendida como sistema epistemológico das artes afro-diaspóricas, conforme formulado por Zeca Ligiéro (2011). Pau de chuva, guizos e chocalhos produzidos com materiais recicláveis não operam como acompanhamento musical, mas como extensão do corpo em movimento. O som, nesse contexto, não acompanha a ação, ele a constitui. A cena se organiza como campo vibrátil no qual escuta, gesto e ritmo são indissociáveis.

A articulação desses elementos produz uma experiência estética que ultrapassa a representação e se aproxima de uma pedagogia sensível. O espetáculo propõe um ambiente no qual crianças são convidadas a perceber a relação entre corpo, natureza e memória como campo de aprendizagem compartilhada. A dramaturgia não transmite apenas conteúdos; ela ativa modos de percepção.

Nesse sentido, A Jornada de Abiã com Oxum se apresenta como uma obra que articula arte, educação e cosmopercepção afro-brasileira em uma mesma estrutura de experiência. Sua cenografia, sua sonoridade e sua dramaturgia convergem para a construção de um espaço em que a infância é compreendida como potência de escuta, imaginação e relação com o mundo.


REFERÊNCIAS

AUGRAS, Monique. O duplo e a metamorfose: a identidade mítica em sociedades tradicionais. Rio de Janeiro: Edição. 2ª. Editora Vozes , 2008.

TEIXEIRA, Anderson Rodrigues. O abiã é o começo, o pé da história: performances do noviciado no(s) candomblé(s). Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), 2018.

LIGIÉRO, Zeca. Corpo a corpo: estudo das performances brasileiras. Rio de Janeiro: Garamond, 2011. 


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