A Jornada de Abiã com Oxum - Coletivo Emaranhado
A Jornada de Abiã com Oxum é um espetáculo infantojuvenil que propõe uma experiência cênica na qual corpo, som, luz e matéria não ilustram uma história, mas constroem um ambiente vivo de percepção, relação e aprendizagem. A obra se organiza como um território sensível em que a cena é compreendida não como representação, mas como campo de experiência compartilhada entre intérpretes e público.
A dramaturgia acompanha a trajetória do abiã, figura associada aos processos de formação, escuta e inserção comunitária nas tradições afro-brasileiras, em diálogo com a presença simbólica de Oxum, orixá das águas doces. Nesse encontro, a cena se constitui como fluxo contínuo, no qual a água não é apenas elemento narrativo, mas princípio organizador de espacialidade, temporalidade e transformação.
A cenografia estrutura esse campo a partir de materiais que operam simultaneamente como espaço e pensamento: a areia, enquanto superfície de inscrição do corpo e da memória do gesto; as esteiras de palha, como arquitetura de convivência e transmissão de saberes; os espelhos e abebés, como dispositivos de reflexão e reconhecimento; e as composições laterais que organizam o espaço como pensamento fluvial, evocando a lógica das águas em seus movimentos de nascente, percurso e desaguar. Nessa configuração, o rio não é representado, mas ativado como modo de percepção do mundo baseado na multiplicidade de fluxos e atravessamentos.
A luz, produzida por lustres confeccionados com palha da costa, não se limita à função de iluminação, mas atua como matéria cenográfica que qualifica o espaço em tonalidades quentes, ampliando a relação entre corpo, ambiente e visibilidade. A água, presente em alguidar ressignificados, instaura momentos de atenção e cuidado, nos quais o gesto de olhar, tocar e refletir reorganiza a percepção do próprio corpo em relação ao espaço.
No campo sonoro, o espetáculo se fundamenta na tríade cantar–dançar–batucar, compreendida como princípio estruturante das práticas afro-diaspóricas, conforme formulado por Zeca Ligiéro (2011). Pau de chuva, guizos e chocalhos confeccionados com materiais recicláveis constituem uma paisagem sonora que não acompanha a ação cênica, mas a constitui. O som, aqui, não é fundo ou acompanhamento: é estrutura viva da cena, que atravessa corpo, movimento e escuta.
Voltado ao público infantil, o espetáculo propõe uma experiência estética e pedagógica que dialoga com a Lei 10.639/03, contribuindo para a ampliação de repertórios sobre ancestralidade, identidade, cultura afro-brasileira e relações de pertencimento. Trata-se de uma obra que compreende a infância como campo de potência perceptiva, no qual aprender é também mover-se, escutar, imaginar e participar de mundos em relação.
Nesse sentido, A Jornada de Abiã com Oxum se apresenta como uma construção cênica em que arte e educação não se separam, mas se atravessam. A cena é um ambiente de formação sensível, onde cada elemento, da matéria ao som, participa da constituição de uma experiência compartilhada de mundo.
REFERÊNCIAS
AUGRAS, Monique. O duplo e a metamorfose: a identidade mítica em sociedades tradicionais. Rio de Janeiro: Edição. 2ª. Editora Vozes , 2008.
TEIXEIRA, Anderson Rodrigues. O abiã é o começo, o pé da história: performances do noviciado no(s) candomblé(s). Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), 2018.
LIGIÉRO, Zeca. Corpo a corpo: estudo das performances brasileiras. Rio de Janeiro: Garamond, 2011.


Comentários
Postar um comentário